CRENTE DUAS CARAS - EXISTE?

O Crente de Duas Caras
Pastoral
Durante um bom tempo, convivi com certa pessoa em diversos ambientes, pois partilhávamos as mesmas atividades. Tratava-se de uma pessoa fácil de lidar porque ele se adaptava bem em qualquer contexto. Onde as pessoas estavam sérias e concentradas, ele agia assim. Onde havia agitação, ele punha “lenha na fogueira”. Porém, onde havia uma atmosfera crítica e as fofocas preenchiam as conversas, ele se tornava o fofoqueiro de plantão. Isso começou a me preocupar e tive de me afastar dele, pois percebi que não se tratava de uma pessoa autêntica, mas alguém de “duas caras” – talvez, no caso dele, mais de duas –, de modo que ele não era um homem digno de confiança.
Infelizmente, esse é um problema vivido pela igreja moderna. A falta de convicção nas Escrituras e nos valores assentados pelo próprio de Deus, além de uma displicência geral para com o pecado e os riscos do mundanismo, tem gerado uma classe crescente de “crentes de duas caras”, ou seja, um “homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.8). Três áreas são marcantes na manifestação desse caráter fraco.
A primeira delas se revela no convívio pessoal. A convivência cristã tem decepcionado muita gente que, confiando em “irmãos”, são alvos de fofocas do pior tipo, de calúnias e até de golpes financeiros. Tenho um amigo que recentemente fez três negociações imobiliárias, duas delas com “crentes” e uma com um descrente. Somente na última é que ele recebeu corretamente o dinheiro da venda, enquanto ainda aguarda o crente de duas caras cumprir o que prometeu. Também já tive a infelicidade de entrar em certo acordo com um irmão e descobrir que o acordo não somente não foi cumprido, como foi diametralmente alterado nas minhas costas, algo típico de uma pessoa de “ânimo dobre”. A ausência de uma palavra confiável e posições que se alteram dependendo da audiência são traços terríveis do caráter humano e causam destruição sobre destruição no meio do povo de Deus.
A segunda manifestação se dá na vida privativa. Longe de exibir sua segunda face no contato com terceiros, alguns crentes, ao se verem sozinhos, assumem uma nova personalidade e um novo caráter – não tenho certeza se é “outro” caráter ou se é o “único” caráter, mascarado diante dos outros pela hipocrisia. Mas o fato é que quem age assim segue rumos que ninguém que o conhece imaginaria. Quando está longe dos irmãos, ele mantém amizades ruins, vai a lugares impróprios e cultiva relacionamentos extremamente questionáveis. Contudo, o maior exemplo desse caráter duplo parece se mostrar no mundo virtual, ou seja, na Internet. Protegido pela reclusão do seu quarto ou escritório, esse crente segue virtualmente caminhos onde nunca desejaria ser visto e até mantém conversas que jamais desejaria que caíssem nos ouvidos dos verdadeiros irmãos. Com perfis que contêm nomes e fotos que não seus, ele se aventura em uma vida paralela muito próxima do mundo perdido.
A terceira surge, infelizmente, no campo teológico. A “salada de frutas” que a teologia contemporânea se tornou é um campo fértil para o surgimento de crentes de duas caras. Enquanto muitos apóstatas e hereges deixam as igrejas verdadeiras e fundam suas “arapucas” para pessoas simples, o crente de duas caras mantém sua posição original como membro e até líder de igrejas históricas, cuja marca sempre foi a firmeza teológica assentada sobre a Sã Doutrina. Apesar disso, eles não querem acolher a teologia ortodoxa e se lançam a apresentar suas heresias sob a capa da “sabedoria”, acotovelando a ortodoxia até que ela seja deslocada do seu lugar cativo. Recentemente, um desses líderes disse ter rompido com o evangelicalismo – apenas oficializou o que suas pregações e artigos já diziam havia muito tempo. É uma tragédia quando alguém apostata desse jeito da verdade, mas é melhor fazer isso que, ainda apoiado nos galhos da igreja bíblica – como muitos “pastores” o fazem –, continuar ensinando mentiras como justificação e manutenção da salvação por meio de obras, insuficiência das Escrituras, salvação universal sem Cristo, aprovação da imoralidade e da infidelidade e até o famigerado “teísmo aberto”, que ensina que Deus não conhece o futuro e que não guia a história do homem, nem da sua igreja. Fazem tudo isso sem deixar a igreja verdadeira, fundada sobre alicerces que repelem cada uma dessas heresias.
Vou dizer a verdade: precisamos acabar com esse hábito pernicioso de utilizar duas caras dependendo da ocasião. Ouçamos e valorizemos as palavras de Tiago: “Seja o vosso sim sim, e o vosso não não, para não cairdes em juízo” (Tg 5.12). É tempo de a igreja ter uma só cara, a do nosso Senhor, visto que “somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3.18). E quem não quiser assumir as feições do Mestre, aquele que deu sua vida na cruz para nos salvar, que deixe as fileiras do exército terreno dos que viverão nos céus e passe a exibir somente uma face: a do mundo perdido. Mas se não quiser isso, segue, então, a santa orientação bíblica: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tg 4.8).